Os Imperios Modernos na cartografia

O LECH vem promovendo diversas atividades acadêmicas com o objetivo de estimular o uso crítico e interdisciplinar das fontes cartográficas e, mais especificamente, de articular o problema da expansão imperial à difusão das práticas de produção, circulação e consumo dos mapas entre os séculos XVI e XIX. Nesse âmbito, os documentos cartográficos apresentam-se como uma fonte documental privilegiada para análise da questão imperial e colonial em suas múltiplas facetas.

As atividades realizadas complementam-se e integram-se aos objetivos das quatro linhas de pesquisa propostas pelo Projeto Temático. Os mapas produzidos no contexto da expansão européia nos remetem a um conjunto de problemas diretamente relacionados à necessidade de enquadramento político, econômico e demográfico dos territórios e populações coloniais, assim como, também, aos desafios de legitimação da soberania externa das metrópoles ibéricas em concorrência permanente com as demais potências ultramarinas.

Se é verdade que o conhecimento da geografia para fins de comércio, guerra e diplomacia foi essencial para a expansão dos impérios, também é relevante destacar que os mapas (sobretudo os impressos), além de terem sido instrumentos para conquista de novos territórios e populações, constituíram importantes suportes da cultura imperial européia.

De parceiros fiéis dos portugueses e súditos do Império espanhol, os holandeses converteram-se nos seus mais vorazes concorrentes ao longo do século XVII, opondo-se duramente ao monopólio comercial nos mares e terras ocupadas pelos ibéricos. Neste contexto, a cartografia impressa holandesa nasce comprometida com a propaganda dos sucessos e conquistas das rotas comerciais e zonas produtoras de matéria-prima, alcançados pelas Companhias das Índias Orientais e Ocidentais. Como é sabido, alguns dos mais importantes mapas da América portuguesa impressos pelas casas editoriais holandesas foram elaborados a partir das matrizes compostas pelos cartógrafos portugueses. Também os holandeses procuraram preservar sua informação privilegiada. Nem todos os mapas manuscritos preparados pelos cartógrafos da Companhia das Índias chegaram a ser gravados e impressos, conservando-se como versões manuscritas até os nossos dias.

De outra parte, os mapas impressos e aquarelados, destinados via de regra ao consumo ostentatório, ganharam enorme prestígio e valor comercial entre diplomatas, cortesãos, colecionadores, viajantes e mercadores, transformando-se em verdadeiros suportes e veículos da imaginação imperial. A historiografia contemporânea tem chamado a atenção para o fato de que os mapas produzidos na época moderna apresentam-se, não só, como parte do fenômeno de ocidentalização das sociedades americanas, mas também, como uma evidência inequívoca do processo de americanização da sensibilidade cultural européia. Como suportes materiais da expansão, eles tornaram a realidade colonial tangível ao público europeu. Assim, a cartografia impressa teve um lugar importante na formação da cultura política imperial européia.

Enfim, tais exemplos nos permitem avaliar as diversas imbricações que esse campo de estudos apresenta. Na mesma direção, devem-se considerar as articulações entre as práticas editoriais desenvolvidas nos centros além-Pirineus e a precoce institucionalização da produção cartográfica nos Estados ibéricos.

Até que ponto o estudo da cartografia nos permite compreender esse aspecto crucial do processo de expansão imperial, qual seja, a formação de um quadro de instituições responsáveis pela produção e reprodução social do conhecimento geográfico, político e demográfico? Em que medida a formação de uma cultura profissional especializada (constituída por cosmógrafos, matemáticos, astrônomos e engenheiros militares) foi fundamental para a construção do edifício imperial? Como lidar com o aspecto cosmopolita das redes de conhecimento que vazavam constantemente as fronteiras imperiais, as lealdades dinásticas e fidelidades religiosas? Estas são algumas das questões propostas pelas investigações que estão sendo realizadas pelo nosso grupo de pesquisadores.


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